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| A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen |
Muitos filmes. Iniciei o período do recesso das aulas com um pacote de vinte e poucos filmes para assistir. Vários Hitchcock, Fellini, Visconti, Lynch... Alguns, já havia assistido no cinema há tempos; queria revê-los. Outros, assistiria pela primeira vez. Revi, por exemplo, A Rosa Púrpura do Cairo, e, muito mais que na primeira vez, me emocionei com Cecilia e concluí que, sim, Woody Allen é um gênio, apesar de não suportá-lo como ator em seus próprios filmes e nem gostar da maioria deles. Mas, que coisa linda é A Rosa Púrpura. Uma homenagem a nós que precisamos de ficção como de oxigênio para viver, a nós que amamos a ficção, a nós que nunca esperamos o pior do próximo e tantas vezes quebramos a cara com a tal realidade.
Também descobri Buñuel. Já havia visto a maioria dos seus filmes, mas talvez não no momento certo. Revendo-os agora fui seduzida pela poesia da linguagem surrealista, pela complexidade das temáticas, pela beleza das imagens. Revi Um cão andaluz, Belle de Jour, Esse obscuro objeto do desejo, O discreto charme da burguesia. Ainda há muitos a ver, e que bom que há, pois significa que ainda tenho muitos filmes pela frente, e o momento da descoberta da beleza é insubstituível. Não se vive essa experiência duas vezes.
Assisti ainda os filmes do David Lynch que ainda não conhecia, antigos e recentes. Inclusive o primeiro longa, Eraserhead. Que narrativa difícil, indigesta. Mas, uma experiência estética e tanto. Acho que é disso que se trata, não é? A menos que a gente queira somente se distrair, o que também não é nada demais. Mas cinema e literatura são bem mais que entretenimento, você sabe. Então, sair da zona de conforto é obrigatório para quem quer de fato experimentar tudo que eles podem nos proporcionar. Assisti e amei Império dos Sonhos e Lost Highway (Estrada Perdida), que nunca havia assistido. Embora eu ame alguns dos filmes do Lynch, como Cidade dos Sonhos e Veludo Azul, não vinha acompanhando seus últimos trabalhos. Estava por fora. Então, estou agora me colocando em dia. Com ele e tantos outros cineastas que admiro. Mas, melhor ainda, estou conhecendo outros, uns 'clássicos' dos quais só conhecia uns poucos filmes (como Visconti) e outros mais contemporâneos (como Kiarostami). Eu ainda vou falar aqui no blog sobre como 2011 foi o ano do Cinema na minha vida, da redescoberta do cinema e de outro modo de me relacionar com ele. Mas, ainda não é agora, neste post.
Muitos livros. Lendo romances, ensaios e acadêmicos, naquela região na qual prazer e dever são - felizmente, e como agradeço por isso, pois sei que é o grande acerto da minha vida - a mesmíssima coisa. Lendo sobre o que gosto e ganhando o pão de cada dia com isso. Nestes dias ando lendo McCarthy (Meridiano de Sangue) e contos de Akutagawa (Rashômon e Outros Contos), ambos muito bons, pra lembrar (como se houvesse esquecido) como amo ler ficção. Como é possível que a gente chegue a se embananar tanto na rotina que acabe deixando de lado uma das coisas de que mais gosta? Pois é. Mas sempre encontramos o caminho de volta. Desta vez, como que por acidente, folheando na livraria dei com os McCarthy e escolhi começar por esse Meridiano meu contato com ele, já que nunca o havia lido, e minha retomada das leituras de ficção.
Assim meio ao acaso também topei com o Skoob (veja as estantes aí na barra lateral do blog). Pedi uma indicação a uma amiga e ela me enviou o link do livro no Skoob dela. Aí me lembrei que já conhecia o site, até havia me cadastrado nele (e no Livreiro), mas não havia me interessado muito na época. A questão é: você não vai assim sem mais começar a cadastrar seus livros lá à toa, isso toma tempo, exige uma motivação. E isso agora eu tenho. Preciso organizar minhas estantes de livros, e mesmo ter à mão as referências já lidas. Em parte porque a esclerose já vai avançando e muitas vezes sou incapaz de lembrar se já li esta ou aquela coletânea de artigos, este ou aquele livro de tal autor (seja ficção ou não), e em parte porque durante toda minha vida li muito de bibliotecas e tantas vezes em uma livraria, com um livro nas mãos, eu não recordo se possuo aquele exemplar ou se foi um dos que emprestei de biblioteca. Assim, estando agora com tempo disponível (recesso das aulas, logo mais férias), decidi organizar minhas leituras e minhas estantes.
Estou cadastrando lá não apenas o que possuo como posse física aqui nas estantes, mas o que já li, seja em versão digital, seja emprestado de bibliotecas. Considerando a facilidade de acesso móvel à internet nos dias de hoje, isso significa que sempre poderei verificar nessa base online o que já li e ter à mão uma (enooorme) wishlist para orientar novas compras, buscas online por arquivos digitais e empréstimos na biblioteca. Ainda não cadastrei senão uma pequena parte da minha biblioteca física (oito estantes de cinco/seis prateleiras, nada demais), a maior parte dela composta por obras acadêmicas, relacionadas a esses vinte anos de carreira na Antropologia. Vez ou outra faço uma limpa e despacho parte dos livros para sebos, doações, enfim, como em todos os setores da vida, não gosto de nada parado acumulando poeira, só pelo amor à 'coleção'.
Por outro lado, não tolero que tratem meu acervo pessoal como biblioteca pública, isto é, detesto aquelas pessoas que chegam na nossa casa e saem catando os livros das estantes com aquela atitude de 'vou levar este, e este, este'. Quer me deixar irritada, faça isso. Eu empresto romances, sem problemas, mesmo aqueles dos quais gosto mais, que curto reler sem compromisso um trecho ou outro - embora relute em emprestar livros esgotados ou com anotações muito pessoais - mas não empresto mais livros acadêmicos. Já tive muita chateação com isso. Eles nunca voltam, ou melhor, quase nunca. E nada é mais irritante do que ter que ficar implorando por uma devolução de livro que para você é material de trabalho, de consulta, que você investiu em comprar justamente para poder tê-lo à mão. As pessoas que prezam tanto nossa generosidade quando querem que emprestemos os nossos não mostram a mesma generosidade com a gente na hora de devolvê-los, e assim acabamos concluindo que é melhor fechar essa porta a ter novas decepções e aborrecimentos. Claro que quem não ensina nem faz pesquisa não entende a relação que um pesquisador tem com seus livros, então vez ou outra você escuta a pérola: mas você não vai ler todos ao mesmo tempo. Ó anta, claro que não, mas estudo vários assuntos ao mesmo tempo, para preparar aulas, para orientar pesquisas dos alunos, para redigir artigos etc., então, sim, precisamos manter os livros à mão e eles são o grande investimento de um profissional de pesquisa. Aprenda. Não estão ali para enfeitar as estantes ou por ostentação. São essenciais ao nosso ganha-pão, só isso.
E a casa. Um sem fim de pequenos problemas domésticos exigindo solução urgente. Infiltração no banheiro, vazamentos, problemas elétricos etc. Preciso dar uma geral e começará esta semana, já agendei o pedreiro, o eletricista.
No mais, é lavar roupas que acumularam nas últimas semanas do semestre, eu completamente sem tempo, e outras que estavam no armário com cheiro de mofo (agasalhos, né?). Separar o que ainda dá pra usar do que está precisando de consertos, dentre roupas, sapatos, bolsas; o que pode ser doado, o que só pode ir para o lixo, o que sei que não usarei mais porque deixei encostado meses... Adoro essa faxina anual, aliás, às vezes, tendo tempo, até consigo fazer duas vezes por ano. Reorganizar tudo nos armários, nas gavetas...
E ainda nem falei do escritório, dos livros, das xerox, dos documentos, contas, papelada... Tudo precisando de uma triagem urgente. Sabé, né? Aqueles papéis que a gente guarda pra ver depois e esse depois é nunca, então terminamos com pilhas de folders e programas de cursos e editais e outras coisas. Deixa pra lá. Mesmo por escrito soa como de fato é: uma bagunça que se reflete em desordem mental. Muita calma nesta hora. Ainda estou procurando coragem pra enfrentar os armários do escritório - meu PC de mesa pifado há meses, que não pretendo substituir - e as estantes onde livros se empilham sobre livros. Preciso de mais uma estante ou prateleiras avulsas. Não há mais espaço e há livros em toda parte, só não nos banheiros, ainda.
E as férias? Sim, as férias! Este ano parte delas passarei na Bahia. Já combinei com minha amiga Joceny. Mas, antes: alguns itinerários já definidos, dos quais Salvador será ponto de chegada, de onde retornarei para casa. Tudo com muita calma e grande margem para improvisos. Mas, não quero contar mais sobre os caminhos de janeiro. Só falarei deles, se falar, depois de tê-los percorrido. Porque justamente é disso que se trata a liberdade: não prestar contas a posteriori nem estar preso a grandes planificações próprias ou a alheias projeções.
Beijos, e que 2012 seja pleno de aventuras pra você também. Só não esquece que para isso você precisa estar disponível, se arriscar, dar a cara pra bater, sair à chuva e se molhar sem frescuras. A vida passa bem sem você e o mundo continuará aí, rodando, quando você se for. Quem tem que fazer questão da vida é você. Então, deixa de ser mole e vai à luta. Ainda sou cética demais em relação a qualquer crença espiritual, espiritualista, religiosa - chame como quiser. Para mim, só se vive uma vez - e é esta. E se, do seu ponto de vista, não valer a pena a sua vida, azar o seu. Não sou eu que irei lamentar.


1 comentários:
Estes tempos de organização são ótimos, não? Flando nisso, gostei da indicação do Skoob, vou tentar usar quando a poeira por aqui abaixar.
Aproveite as férias!
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