sábado, 21 de janeiro de 2012

Eu não amo livros, eu amo literatura!




Li ano passado algunss livros que me decepcionaram, embora tenham sido bem recomendados por amigos, inclusive um do qual cheguei a citar uma passagem aqui no  blog (Pequena Abelha). Era de fato uma passagem bonita, mas não havia nada mais no livro além daquilo. Sabe aqueles filmes que a gente vai assistir só pra descobrir que só havia de bom o que colocaram no trailler? Bem antes da metade, a qualidade do livro baixou vertiginosamente como elevador caindo no poço. Tudo formulaico, previsível, personagens planas, texto estilo Nova-Cosmopolitan. Quando isso ocorre, sinto-me ludibriada e penso como é possível que ainda me deixe enganar e perca meu tempo com coisas assim quando há tantas obras maravilhosas a serem lidas e meus recursos (tempo e dinheiro) são sempre limitados. É verdade que foi uma típica "compra de aeroporto", feita numa ocasião na qual teria que mofar no saguão por algumas horas e não tinha o que ler, pois havia esquecido de retirar um livro para manter comigo antes de despachar a mala. Não costumo comprar livros por impulso ou simpatia à primeira vista. Escolho criteriosamente o que lerei, ciscando aqui e ali nas páginas, diretamente nas livrarias ou acervos digitais, pegando referências de autores que ainda não li com amigos que também lêem boa literatura e privilegiando autores dos quais já gosto.

Quanto à leitura, normalmente, não perco tempo levando adiante livro ruim. Interrompo sem dó. E quando digo 'ruim' refiro-me à baixa qualidade, não estou falando de "chatice" ou dificuldade de leitura, porque há dificuldades interessantes, enriquecedoras, que é importante enfrentar. Ler um Thomas Mann, um Dostoiewski, um Proust ou um Coetzee daqueles mais pesados nunca será só um passeio. Antigamente, eu sentia uma obrigação moral de levar o livro até o fim mesmo que visse logo se tratar de literatura fajuta, apenas para provar (a quem, senhor?) minha persistência e disciplina. E também porque acreditava que só poderia emitir alguma opinião se lesse até o fim. Isso é um equívoco, gente, uma enorme BESTEIRA. Olha, se você tirou bom proveito das suas aulas de literatura no primeiro e segundo graus, basta isso para que tenha referências suficientes para identificar, examinando capa, orelhas, prefácio e lendo uns poucos parágrafos, alguns dos elementos que diferenciam um livro promissor de uma porcaria comercial. Vamos combinar que os caça-niqueis não fazem tanto esforço assim para disfarçar seus objetivos e qual público estão tentando atrair para a prateleira e a caixa registradora. Capinhas coloridas demais com títulos bobos: chicklit, ou seja, aquela chamada literatura para mulheres, tipicamente para jovens mulheres (e minhas tripas se contorcem todinhas quando digito isso, ai minha santa Simone de Beauvoir, tanta revolução e ainda hoje existe um troço desses e quem lhes consuma com gosto). Capas escuras com símbolos góticos: novelinhas de vampiros e similares; capas que mostram casais em situações românticas: novelas açucaradas cheias de reviravoltas, nas quais o casal não pode ficar junto, porque há desnível social, um grande segredo que os afasta, triângulo amoroso, traições, grandes golpes e truques de narração que qualquer criança de cinco anos dotada de dois neurônios perceberia de cara. Enfim...

Eu não sou, obviamente, crítica nem teórica da literatura e também não sei, portanto, falar de ficção ou de poesia como os profissionais falam. Eu só sei falar de modo simples, pessoal e descomplicado. Isso não me impede de gostar de ler livros e artigos sobre teoria e crítica literárias e babar com aquelas análises que eu mesma não saberia fazer, mas que, no mínimo, abrem meus olhos para dimensões da literatura que de outra forma permaneceriam ocultas para mim. Só isso já vale.

Já li sim alguns Stephen King, alguns Agatha Christie durante minha juventude, e, se der na telha, ainda posso ler alguma coisa no gênero policial ou terror fuleiro enquanto espero em um saguão de aeroporto, por exemplo, só pra não ter que ficar olhando para o relógio de cinco em cinco minutos. Mas quando a gente começa a sentir mais palpavelmente, inclusive no corpo, a passagem do tempo e as limitações decorrentes de nossa rotina diária, quase toda ocupada pelas obrigações decorrentes do trabalho e vida doméstica, é hora de reforçar o amor próprio, valorizar nosso tempo de vida aqui no planeta Terra e a boa capacidade de visão de que ainda podemos gozar, mesmo que com a ajuda de um par de óculos, e de passar a ter ainda mais cuidado com o que 'mandamos para dentro' da nossa cabeça, do mesmo jeito que temos cuidado  com o que escolhemos para comer. Leitura boa alimenta a alma, o intelecto, a imaginação, apura a sensibilidade. E não queremos passar toda a vida adulta com a roda presa na adolescência - ou queremos?

Literatura que merece esse nome te pega num determinado ponto da vida e te deixa lá, mais adiante, sempre 'mexido'. Pode te levar pela mão com alguma delicadeza, de modo sutil, abrindo insights preciosos, ou te acertar em cheio, inesperadamente, um pontapé nos colhões. O que boa literatura não faz é te anestesiar, te alienar da tua humanidade, te afastar da complexidade da vida em favor de simplificações, maniqueísmos, fórmulas. Quem só quer torcer pelo mocinho ou descobrir "o grande segredo" da heroína pode ler outros tipos de livros. Quem gosta de fábulas redentoras, com clímax no final e lições de moral baratas, pode ler Sidney Sheldon e outros produtos comerciais do mesmo nível e ser muito feliz com isso. Mas, essas coisas não são literatura, ok? Se você sabe disso e está a fim é disso mesmo, beleza. Problema teu, né? Só que vemos gente que só lê isso e diz que adora "literatura". Morro de pena, não posso evitar. Sei que é patronizing, antipático, superior, mas fazer o quê? Sinto a mesma pena que sinto quando vejo o povo tomando refresco artificial e pensando que está ingerindo vitaminas. Analfabetismo funcional todo mundo sabe o que é, mas e o analfabetismo literário? Será que essas pessoas têm noção do que estão perdendo durante sua vida? Fizeram algum tipo de "voto de pobreza de espírito"? Será que percebem que seria possível dar um passo adiante se tomassem conhecimento de todas essas coisas lindas que estão por aí mofando nas estantes enquanto elas investem seu dinheiro e tempo em caça-niqueis que, com sua participação, vendem que nem pão quente e contribuem para reforçar a crença de que brasileiro só gosta de lixo e boa literatura não vende?

Assim, esse negócio de sair afirmando aqui e acolá que "adora livros" não me impressiona nem um pouco. Diga-me quais livros. Há livros que são verdadeiras bad trips e ler por ler, qualquer coisa, na minha opinião não acrescenta nada ou pode acrescentar caraminholas perigosas. A força da palavra, como ferramenta ideológica, nunca deve ser subestimada. Um livro pode ser tão inócuo ou negativo quanto um programa de televisão ou um filme horroroso daqueles que dão vontade de passar na bilheteria e exigir o dinheiro do ingresso de volta. Nunca subscrevi a ideia, muito popular por aí, de que ler qualquer coisa é melhor do que não ler. Isso me parece um preconceito herdado de uma certa noção do que seja cultura, que passa pela supervalorização da escrita e da leitura em detrimento de outras formas de produção de conhecimento, de expressão da criatividade e apreensão e fruição do mundo, e que também está presente nessa atitude de culto ao livro como objeto sagrado, da qual não compartilho e da qual não gosto. Por pensarem assim é que as pessoas compram livros que depois não leem ou enchem as estantes de belos livros de arte e filosofia que não têm competência ou interesse em ler só para adquirirem status de intelectuais ou gente de bom gosto. Acho isso péssimo, como toda hipocrisia e atitude decorrente da busca desesperada de aceitação pelos outros.  

Enfim, querid@s, por quê se contentar com porcaria esquemática, superficial, banal, quando se pode ter coisa melhor. Falando nisso, nestes dias comecei O Bigode, de Emmanuel Carrère, uma narrativa que tem uma pegada cômica, porém de tonalidade um tanto cruel. É a primeira vez que leio esse autor e o descobri fuçando no site da Saraiva. Li a sinopse do livro, fiquei curiosa e fui pesquisar por aí. Se mantiver a qualidade das primeiras páginas até o fim, é o primeiro mas não será o último Carrère que lerei na vida. 
Hora de colocar, então, a cabeça pra viajar...


Update: Terminei a leitura do livro. Excelentes as duas novelas, O Bigode e A Colônia de Férias. A primeira tem aquele clima de paranóia que envolve completamente a gente. E mais não falarei, que não estou aqui pra fazer spoiler ou escrever crítica. Vão lá ler...

10 comentários:

Beth Blue disse...

Um dos melhores posts que li nos últimos tempos na blogosfera. Provavelmente vai virar post lá no meu blog porque penso exatamente como você.

Infelizmente, as pessoas confundem livros com literatura (assim como confundem filmes com cinema de arte). Eu não só me formei em Letras como mesmo antes de me formar já lia os clássicos. Adoro uma leitura difícil e nada se compara a autores consagrados como Clarice Lispector, Virginia Wolf, Katherine Mansfield, Oscar Wilde...a lista é grande. Também há muitos autores contemporâneos excelentes, é só saber procurar.

O que eu acho - sem querer ser elitista e já sendo - é que muita gente não tem a capacidade (nem as ferramentas) pra distinguir uma coisa da outra. Se considerarmos o índice de (semi-)analfabetismo no Brasil, nem chega a surpreender!

Literatura, assim como a arte em geral sempre fui privilégio de poucos. Infelizmente. A grande maioria se contenta com muito menos. E nem sabe o que está perdendo...

Beth Blue disse...

Agora, de vez em quando até me permito uma leitura mais "light" porque também sou humana e a vida por si só já é pesada demais...

Uma "chick-lit" vez ou outra pra desopilar o fígado nunca matou ninguém...mas uma dieta de apenas chick lits deixa muito a desejar. Não chega a ser alimento para a alma. Daqueles livros pra rir, chorar e depois esquecer...

Pri S. disse...

Perfeito!

Eu não sou nada fã de chicklit, autoajuda e alguns modismos que vejo por aí.

É claro que às vezes eu leio umas bobagens "pra ver qual é". Mas não me obrigo a terminar de ler quando é porcaria, não...

Leio compulsivamente e sou eclética. Tenho fases de ler mais ou menos, dependendo do meu momento de vida. E minhas escolhas literárias tb acompanham esses meus momentos de vida.

Na minha experiência - e não posso dizer que com outras pessoas seja assim - eu fui amadurecendo meu "gosto". Aprendendo a distinguir literatura descartável de boa literatura. Aquela leitura que te acrescenta algo daquela que machuca os olhos e a inteligência. Aquela na qual vc vai voltar outras vezes durante a vida daquela que você já nem lembra mais depois que finalizou.

Esse seu texto é pra ser compartilhado! ;-)

Inaie disse...

Eu leio livros ruins e assisto filmes pessimos, pra poder falar mal com autoridade e conhecimento de causa!!

tania disse...

Sintam-se à vontade para compartilhar o post nos seus blogs, caso queiram mesmo fazê-lo. Bom saber que rendeu bons comentários e que acreditam que possa interessar também aos seus leitores, mesmo sendo tão loooongo. Ainda não aprendi a ser econômica. Sempre falo demais! rs
Beijocas

Maria Valéria disse...

adorei seu post.
confesso que não sou tão assim aficcionada em literatura, não. tenho e sempre tive dificuldade pra textos narrativos( engraçado, isso tanto pra ler quanto pra escrever textos assim!)- de literatura, mesmo, gosto de alguma coisa de Eça de Queiroz,adorei alguns de Charles Dickens e gosto dos contos da Lygia Fagundes Telles.E alguma coisinha de Machado de Assis.
Engraçado, que me dou super bem com os chamados livros didáticos. Pra aprender mais algo sobre alguma coisa sou excelente, e tenho em casa um punhado de livros desse tipo( não estou falando de auto- ajuda, e sim de estudar a fundo algo que me interesse).Li recentemente um sobre psicopatas, outro sobre bullying, outro sobre o naufrágio do Titanic. E por aí vai.
Dos livros que não são considerados literatura propriamente dita, gosto somente da Agatha Christie. Nunca passei perto do restante dos best- sellers comerciais, exceto Paulo Coelho, na adolescência.( e parei pq achei que o modo de escrever dele é enjoativo..)...
O que atrapalhou muito meu gosto por literatura foi a cobrança desses livros por vestibular.Não fosse por isso, talvez tivesse lido por prazer.Lembro de ter lido um de Eça de Queiroz aos 30 anos, livre das cobranças do vestibular, e foi uma experiência totalmente diferente e gostosa.( embora a leitura seja dificil!)...
bom post, faz a gente pensar!!! beijao, querida

Jô Bibas disse...

Para complementar tua excelente reflexão, convido a repensar acervos. A gente guarda tanto livro que podia estar passeando por aí...

www.arteamiga.wordpress.com

Sharon Caleffi disse...

Oi Tânia!

Vim ao seu blog através da Pri... eu também já tinha pensando sobre "não amo livros", mas o final da minha frase é "eu amo ler!"

Na verdade, eu leio de um tudo, mas chik-lits e YA só se me caírem no colo, se não tiver opção MESMO. Tem tanta coisa pra se ler nesse mundo! E eu vi que você escreveu alguma coisa sobre o 2666, que é um dos que está na minha estante, me esperando... estou correndo lá no post pra ler.

Beijão!

Gisley Scott disse...

Tânia, vc falou uma coisa muito importante, tem muita porcaria no mercado e muitos autores fajutas enriquecendo às custas dos bestas.

Talvez o problema seja eu, mas aquela série do Crepúsculo não me entra! Tem crianças, adolescentes, mãe e avós que lêem e se presenteiam com os livros! Sei lá, acho tão batido, bem Buffy, sabe? rs...

Bjs

tania disse...

Nem são autores, Gi. Essas coisas são produzidas por equipes, não são autorais. Produzidas mesmo, no sentido de fabricadas. Misturam e combinam um série de clichês do gênero (terror, por exemplo, ou romance) e aí saem essas coisas que lotam as livrarias. Dá até raiva.