segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Abaixo o preconceito contra o busão


Tenho visto ganhar destaque em algumas redes campanhas em favor da bicicleta como alternativa de transporte urbano mais humanizado e sustentável. Claro que sei que essa proposta passa pela discussão dos combustíveis, do veículo motorizado e poluente etc., mas, dado o estado de congestionamento das rodovias urbanas e os excessos da cultura do automóvel, caberia ainda outra proposta. Além de demandar ciclovias e respeito aos ciclistas, seria importante também combater o preconceito ao uso do transporte coletivo. Estou cansada de ouvir que 'depender de ônibus em Natal é impossível' mesmo da boca de pessoas que passaram umas poucas semanas sem carro aqui ou até de jovens que mal acabaram de completar 18 anos outro dia. Isso é mentira, não passa de um modo de racionalizar o preconceito que as pessoas têm vergonha de admitir.
O transporte coletivo aqui apresenta falhas, é claro, algumas bem graves, sendo melhor em certos bairros do que em outros, em certos dias da semana e horários do que em outros etc.  Falta manutenção adequada dos veículos, intervalos regulares e pontualidade, melhor distribuição das linhas, dentre tantos outros problemas, comuns, aliás, em maior ou menor grau, a todas as cidades que conheço no Brasil e onde já tenha passado pelo menos algumas semanas, como Recife, Mossoró, Belém, Belo Horizonte, Juiz de Fora, São Paulo, Porto Alegre, Vitória, Brasília... Domingo, por exemplo, as frotas ficam super reduzidas. E claro que faz falta em Natal um serviço de metrô e um trem urbano que funcione melhor e integre mais e melhor as localidades. Mas, por outro lado, se for considerar com atenção e sem preconceito, as condições do trânsito na cidade também não oferecem moleza para quem dirige. Não é nenhum vidão ser motorista em Natal, como, aliás, não deve ser - talvez por outros motivos - na maioria das capitais hoje. Outro dia voltei do trabalho de carona com um colega e, para fazer um percurso de menos de dez minutos, levamos quase exatamente uma hora. Soube depois que era somente um sinal quebrado na av. Roberto Freire, avenida principal onde se concentra o tráfego de veículos aqui neste pedaço...
É sim, muito cômodo quando se está cansado ou com pressa ter o carro ao alcance das mãos, tanto que não sou besta de dispensar carona na saída do trabalho ou programa social, quando estou cansada, embora vá para o trabalho tranquilamente de ônibus. Mas esse discurso do 'não dá pra viver sem carro em Natal' eu venho escutando nesses 15 anos durante os quais eu vivo em Natal... sem carro! Como vivia antes no Rio, já que nunca aprendi a dirigir. E taí o melhor argumento contra ele. E não, gente, não sofro de nenhuma fobia. Só de preguiça mesmo. Ou talvez tenha se tornado quase um 'estilo' de vida a esta altura, sei lá...
Quando morava no Rio, usava todo tipo de transporte, trem, metrô, ônibus e, principalmente, minhas perninhas finas e saudáveis. Enquanto, em 2002, cursei espanhol no consulado argentino, por exemplo, fiz diariamente `a noite o percurso que separava minha casa, no Catete, de Botafogo, onde ficava o curso, passando, nessa caminhada, pelo Flamengo. Ou seja, por nada menos que três estações de metrô (Catete, Largo do Machado, Flamengo). Se Natal tivesse calçadas, como deveria ter, nos bairros, faria quase tudo a pé aqui também. Mas aqui há longos trechos só na terra solta ou até sem calçada nenhuma. Se estiver a pé, você terá que andar no meio fio, o que é demasiado perigoso e totalmente desaconselhável. Bicicleta também é complicado, porque ciclovias nem pensar, né? E, no meio do trânsito, disputando com as barbeiragens dos motoristas fodões dos automóveis, só se eu fosse maluca. De modo que minha humilde Caloi mal tem saído dali do canto...
O que ocorre nessa estória de 'não dá pra viver sem carro' é bem outra coisa: carro continua sendo símbolo de status e poder e as pessoas consideram vergonhoso, coisa de pobre, andar de ônibus. Pra esconder isso, exageram os defeitos do transporte público, que deveria, pelo contrário, ser valorizado, até por ser uma alternativa mais econômica para o orçamento individual e mais sustentável para o ambiente. As camadas médias, educadas, supostamente dotadas de senso crítico e capacidade de mobilização social, deveriam é defender a importância desse tipo de transporte, exigir melhorias, reformas, e não lhe dar as costas com ar de superioridade. A verdade é que a gente só cuida do -  se importa com o - que a gente usa.

2 comentários:

Maria Valéria disse...

Estive em Londres em maio/ junho e lá é exatamente o contrário: busão é chique!! minha irmã prefere, aliás, o busão que o metrô, pq senta no segundo andar e vai olhando a paisagem enqto o tempo passa... lá em Londres, e na maioria dos países da Europa, carro não faz nenhuma falta.aliás, em Londres ninguém sai pra balada de carro, pq se pegarem vc dirigindo embriagado vc nunca mais dirige na vida!!...
Aqui em Campinas, e sampa( onde morei) falta, sobretudo, segurança pra andar de ônibus. Quem vai querer andar depois das 22 horas em alguns bairros e correr o risco de ser assaltado ao andar a pé algumas quadras?
em sampa, se tivesse metrô na porta do trab eu teria usado( tinha 4 quadras de casa, mas não perto do trbalho... :( ) em Campinas, embora more num bairro ótimo e seguro, gasto somente 10 min de carro pro trab, o que gastaria bem mais de busão. e tenho preguiça de acordar cedo, gosto de almoçar em casa... bike, nem pensar aqui, com a barbeiragem que tem aqui no trânsito. Mas, Campinas, bem que mereceria um metrô, há séculos que pedem isso... eu seria a primeira a usar... bjs!!

Beth Blue disse...

Agora que estou trabalhando (sou assistente em sala de aula então sou um pouco professora, hehehe) ando de ônibus quase todo dia aqui em Amsterdã.

Adoro um busão...nunca tive carro no Brasil nem aqui. Quando morava no centro de Amsterdã, eu andava mais de bicicleta. Hoje em dia eu ando mais mesmo (a pé) e não tenho o menor problema de pegar um busão.

Povo besta eu hein...

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