segunda-feira, 27 de junho de 2011

A verdade da caneta


Artigo de Débora Diniz, professora da UnB,
publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 26-06-2011.
Copiei do site do IHU -  Compartilhe também, divulgue.

A primeira vez que vi as imagens de tortura de presos de Abu Ghraib foi em fotografias na internet. Em seguida fui à exposição de Fernando Botero sobre as mesmas imagens, um pastiche de arte e política. As fotografias e as telas me causaram medo e desconforto: aprendi como os torturadores agem em segredo e impunemente, mas também como há muitas pessoas que não estranham suas práticas. As fotos eram o registro da perversão compartilhada - daqueles que praticavam a tortura e daqueles que a imortalizavam como lembranças de uma viagem secreta. Foi um sentimento semelhante ao que experimentei ao ler a entrevista de d. Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos, em que ele descreve suas práticas de confissão impostas às mulheres vítimas de violência sexual que o procuram em busca de conforto.

Não há mulheres verdadeiramente vítimas de estupro, diz o bispo na entrevista. Em alguma medida, todas consentem com a violência sexual. Para ilustrar seu julgamento moral sobre as mulheres e suas falsas histórias de violência o bispo faz uso de uma alegoria que provavelmente resume o que ocorre em seu confessionário: ""Então, sabe o que eu fazia?" Nesse momento, o bispo pega a tampa da caneta da repórter e mostra como conversava com mulheres. "Eu falava: bota aqui", pedindo, em seguida, para a repórter encaixar o cilindro da caneta no orifício da tampa. O bispo começa a mexer a mão, evitando o encaixe". Para o bispo, o orifício da tampa de uma caneta resume a verdadeira história das mulheres estupradas - uma mulher que não consente com o ato sexual "resiste ao encaixe do cilindro na tampa da caneta". Ao serem confrontadas com a verdade da caneta, as mulheres desistiriam do aborto, pois o estupro seria uma mentira.

Nem por meio dessa alegoria espúria sobre a dignidade e o sofrimento das mulheres o bispo conseguiu se aproximar daquelas que o procuram em busca de conforto. Ao segurar o orifício da tampa, o que em sua racionalidade representaria a vagina das mulheres, o bispo foi incapaz de corporificar aquela que teme a violência. As vítimas de violência são meninas e mulheres jovens, para quem o silêncio e o temor são impostos por diferentes métodos - sabemos pouco sobre como se comportam as mulheres em uma cena de violência, apenas a ficção nos conta como elas controlam o corpo nesses momentos. Sob a ofensiva de uma arma, as mulheres nem sequer choram. Elas paralisam, emudecem e cumprem o ritual de perversão de seu torturador, tal como Lucy, a personagem de Desonra, de John Coetzee, que é estuprada no quarto por um grupo de homens enquanto seu pai é trancado no banheiro ao lado. Ela se mantém muda.

O bispo diz ter 52 anos de escuta no confessionário, uma experiência que lhe daria autoridade sobre a índole das mulheres. Ele não diz quantas vezes aplicou o teste da verdade, mas sua tranquilidade narrativa me fez lembrar os torturadores e os fotógrafos de Abu Ghraib. Nem o bispo, nem os torturadores, nem os fotógrafos temem suas práticas, pois não conseguem qualificá-las como inumanas. As mulheres estupradas que chegam ao confessionário jamais foram verdadeiramente ouvidas pelo bispo, para quem o mal maior é o aborto e não a violência. Ao imaginar essas mulheres e seus temores, a alegoria da caneta me soa vulgar, ofensiva e violenta. A autoridade espiritual do bispo e o regime confidencial da confissão permitiram que o teste se mantivesse em segredo. Mas, assim como as fotos de Abu Ghraib foram tiradas pelos próprios militares que praticavam as torturas, o teste da caneta para a obtenção da confissão das mulheres foi espontaneamente narrado pelo bispo que o idealizou.

Na alegoria da caneta, o bispo assumiu o lugar das mulheres na cena da violência simulada com a repórter. A tampa da caneta seria a vagina resistindo ao pênis do estuprador. A vagina que mexe, segundo a imaginação do bispo, é a da mulher que resiste ao estupro, nem que isso lhe custe a vida. Esse deslocamento de posições não é inocente: representa a autoridade do bispo, que se crê controlando as vaginas das mulheres como se fossem tampas de canetas, diante das vítimas e de suas histórias de tortura. Como o teste da caneta foi criado, quantas vezes foi executado e quantas mulheres foram humilhadas e não confortadas espiritualmente são dados à espera de novas confissões de d. Bergonzini. Assim como o império militar estadunidense se rendeu às fotos de Abu Ghraib, é preciso levar a sério o que foi dito pelo bispo, que age protegido pelo sigilo do confessionário.

6 comentários:

Anita disse...

O que confere a alguém o direito de julgar uma vítima de estupro? Em que ponto da vida de um ser humano você pode se considerar apto para dizer que a vítima poderia simplesmente ter resistido? O que faz alguém pensar que é sempre possível optar por aquilo que seria mais "correto" quando tem uma arma apontada para a sua cabeça?

Maria Valéria disse...

já estou enojada. afinal, bispo não é mulher, não menstrua, não engravida e não sofre o que sofremos.se tivéssemos representantes mulheres na igreja, a história seria outra, aposto. beijos.

tania disse...

Pois, Anita, pois é... que arrogância, não é? Inacreditável a insensibilidade desse homem. Uma tristeza.

tania disse...

Não sei não, Maria Valéria, porque o conservadorismo não tem sexo. E a hipocrisia também não, né?

Eve disse...

deixa ver se eu entendi: quer dizer que a gente tem um buraco pra ser usado e que se reagimos com "violencia" a esse uso, a culpa é nossa? ou se nao reagumos também?
eu tb sei que o bispo tem um buraco e vou solicitar que alguém tente fazer uso do mesmo pra ver como é que ele se sente. e nao será com delicadeza...
eu fico chocada em como alguns pensamentos arcaicos (que a religiao confere, nao dá pra isolar uma coisa da outra) ainda existem e geram tanta discrepância de julgamentos. tudo isso como justificativa pra evitar o aborto??
qto mais eu vivo, mais me assusto com esse mundo, viu?

tania disse...

O que ele diz, Eve, com todas as letras, é que as mulheres raramente foram de fato estupradas quando declaram que o foram. Porque, segundo ele, se elas quisessem, poderiam ter evitado a penetração (assim como ele pode desviar a tampa da caneta, olha que ridículo).
Ele não só não sabe o que seja ter uma vagina, como ele também faz abstração de todo o contexto de agressão, de toda situação de intimidação, terror, paralisia, dor física e psicológica, iminente risco de morte etc. Enfim, é um boçal. Não há credo religioso que justifique tanta estupidez e insensibilidade.

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