domingo, 26 de dezembro de 2010

Tropa de Elite 2 é foda, parceiro.

Site oficial do filme e do primeiro Tropa de Elite.

Hoje, 27/12, foi noticiado que a bilheteria de TE 2 bateu a de Avatar,
de James Cameron, e tornou-se a maior bilheteria de cinema no Brasil.
Este filme teve um tremendo impacto sobre mim, que fui assisti-lo pela primeira vez sem esperar nada, meio a contragosto até. Estava, há anos, saturada da temática - com que cheguei a trabalhar profissionalmente, ainda que por um período curto, porém intenso - e vinha evitando ler ou assistir qualquer coisa sobre "violência no Rio", "violência em favelas". Cheguei a assistir ao documentário sobre o 174, mas não havia assistido Tropa de Elite (o primeiro). Cidade de Deus (do Fernando Meirelles) assisti sem muita atenção, no dvd. Por puro escapismo, impaciência, cansaço, sei lá. Mesmo assim, muito depois que havia passado no cinema. 
Só nós, cariocas ou moradores do Rio de Janeiro durante muitos anos, sabemos o que é o massacre de conviver com esse tema - com a multiplicidade de discursos em torno dele -  no nosso cotidiano. Some-se a isso o fato de que, enquanto pesquisava em favelas, tive que ler um bocado da, então obrigatória, literatura produzida a respeito na minha área. Durou pouco, felizmente. Não era minha praia. E a experiência de trabalho de campo diário, durante um período no qual as favelas da zona sul do Rio nas quais trabalhei se encontravam em 'guerra' com outras favelas, me causou um intenso desgaste emocional. Simplesmente não tinha mais saco pra esse assunto.
Porém, assim sem mais, ele voltou à minha vida através do cinema. E me pegou de jeito. Em parte, porque a forma narrativa de TE2 é muito sedutora, cheia de ritmo e pontuada por delicioso, e inusitado, humor carioca, que tempera o conteúdo pesado (corrupção, milícia, violência, frustração); em parte, ainda, por causa do tema das milícias e do regime de terror silencioso que elas instalaram não somente nas antigas áreas controladas por traficantes, mas também nos subúrbios do Rio de Janeiro, uma realidade que, como carioca que passou a maior parte de sua vida na cidade e tem parentes morando lá, me incomoda e preocupa bastante.
Fraga, Irandhir Santos, o "intelectualzinho de esquerda".
Claro que nós somos crescidinhos demais para acreditar que exista uma polícia isenta de corrupção, uma "tropa de elite" que esteja acima do quadro geral de deterioração institucional mostrado pelo filme (e, desculpa aê, pela própria realidade pra quem não é cego). Esta pode ser a ideologia nativa - do Bope e, portanto, do agora coronel Nascimento, que, sendo quem é, só poderia pensar assim mesmo (mas, mesmo ele, desperta para a realidade bem mais complexa que o cerca, quando o filme se aproxima do seu final). Diga-se de passagem, vejo como uma verdadeira preciosidade que o filme seja narrado do ponto de vista de agentes da polícia, que surge como instituição complexa e multifacetada, e como sujeito de discurso, ao invés de ser apenas objeto de discurso alheio. Está lá o político de esquerda (o Fraga, interpretado por Irandhir Santos), principal antagonista, no terreno ideológico, do coronel Nascimento, para apresentar aquele discurso crítico tão conhecido nosso contra o fascismo das ações policiais do Bope, mas também lá estão, para engrossar essa sopa, os conflitos internos à própria polícia, seus discursos ideológicos próprios, racionalizadores, seu credo institucional, suas boas e más intenções, e ações, explícitas. 
Com o filho: Você acha que eu acreditei que aquela maconha era sua?

É pura alegria ver um filme nacional que apresenta qualidade técnica, sequências de ação policial de tirar o fôlego e drama social bem amarrado em torno de temas dotados de alto grau de universalidade: o drama 'público' da violência/corrupção nas esferas institucionais da polícia e da política, mas também o drama 'privado' que se passa no plano familiar/afetivo, como na relação pai-filho encarnada por Nascimento-Rafael e Nascimento-André Matias. Coronel Roberto Nascimento é, antes de mais nada, uma figura paterna em Tropa de Elite 2, ao contrário do que ocorria no primeiro, no qual o centro do drama  do jovem e impetuoso capitão Roberto Nascimento é justamente seu confessado medo de morrer durante as atividades a que seu trabalho lhe obriga, enquanto vive sua gradual transformação em pai de uma criança que está prestes a vir ao mundo - a este mundo, que, visto por sua ótica, estaria em guerra. Seu casamento naufraga justamente porque ele falha em conciliar as exigências das duas instituições, igualmente absorventes: a polícia e o casamento. Nascimento perde a esposa, é afastado do filho recém-nascido e termina só no apartamento modesto e então sombrio, no final do primeiro filme. Não é outra a situação na qual o encontramos, 12 anos depois, no segundo filme, inclusive no mesmo apartamento ("faca na caveira e nada na carteira", já dizia o bordão gritado no primeiro Tropa) e na mesma solidão em que o deixamos no primeiro, exceto que, numa espécie de compensação pelas perdas pessoais, ele definitivamente tornou-se figura de autoridade máxima no Bope e 'pai' de André Matias, o filho cuja desobediência deflagra toda a estória do Tropa 2. Teria muito mais o que dizer sobre Nascimento, porém deixarei para outro post.
André Mattos, o Fortunato
Lá está também o humor do primeiro Tropa, com novos divertidos bordões, aquelas frases que grudam na nossa memória. Como todo humor, no entanto, esses bordões e o próprio estilo humorístico adotado estão muito ligados ao carioca way of life, e, assim, não causam o mesmo impacto em todas as platéias. Não vou te contar quantas vezes assisti a esse filme - não sou louca, já tem amigo meu querendo me internar. Basta dizer que assisti no mínimo duas vezes em cada uma de três cidades diferentes, Rio, Brasília e Natal. Sei em quais momentos do filme todas as três platéias riram ("Eu nunca me meti na vida da Rosane depois que a gente se separou, mas casar com ele foi sacanagem" e "Cada cachorro que lamba sua caceta", por exemplo, e as sequências do apresentador de tv que lembra o Datena). Já bordões como "Tá de pombagirice", "Quem quer rir tem que fazer rir" etc. tem cheiro de regionalismo carioca e, de fato, não soam tão engraçados para outras audiências. As platéias no Rio riram de se acabar, mas aqui em Natal, por exemplo, essas frases provocavam no máximo um risinho ou outro... O humor, vale observar, está dentre as coisas mais características de uma cultura, quer dizer, cada um ri à sua maneira: cada classe social, cada segmento de classe, cada categoria profissional, cada faixa etária, cada nacionalidade, cada região, cada tribo urbana ri de coisas diferentes, em ocasiões distintas, do seu próprio modo... E isso também já seria assunto para outro post. Sim, eu tenho muito o que falar sobre o Tropa. Por isso, fui assistir tantas vezes.
Elenco afinadíssimo, com exceção de Tainá Muller, que teria que fazer muita Malhação antes de ser escalada para um time como esse, para chegar a ganhar muque pra encarar Irandhir, Maria Ribeiro, Milhem Cortaz, Sandro Rocha, dentre outros. Sem falar que ela é muito jovem para aquele papel - a "jornalista mais polêmica da cidade"?! No Rio? Me poupem, ela tem cara e jeito de estagiária! Como diria o capitão Nascimento durante o treinamento dos aspirantes ao Bope: "nunca serão!" Ou melhor, nunca seria a jornalista mais polêmica da cidade. Mas, por que reclamar quando há tantos desempenhos memoráveis? Falarei sobre três dos que mais me impressionaram - embora, quero frisar, seja um dos elencos mais maravilhosos que já vi em um filme, todos mais ou menos no mesmo nível, embora a própria obra não lhes dê a mesma oportunidade de atuação. Esta é provavelmente uma das razões pelas quais o filme é tão bom: ele não fica o tempo todo em cima da figura do protagonista e a gente chega a ter a impressão de que há vários protagonistas, nas várias linhas de ação paralelas.
Rocha, Hoje é numa boa, hoje é numa boa
Irretocável no desempenho de um dos vilões mais cruéis já vistos no cinema (ou na ficção), o policial corrupto/miliciano Rocha do "Hoje é numa boa, hoje é numa boa", "Fechamento nosso também. Tamo junto!", Sandro Rocha está dando um show, com aquele molejo na voz e no corpo, aquela expressão que vai variando do deboche para a incredulidade e daí para a ira. O mesmo pode ser dito de Seu Jorge, cuja participação é brevíssima e para lá de especial - "E aí Curió, vai cantar o quê pra nós?"; "Nós mata a porra toda aqui também"; "Vocês engordaram o porco, agora nós vai assar!" - na sequência inicial que mostra a briga entre facções dentro do presídio Bangu I. Aliás, uma sequência maravilhosa, do melhor cinema. E, claro, Wagner Moura, que só é revelação para mim, que, boba, não havia visto Tropa de Elite nem Cidade Baixa e, confesso, não havia dado muita atenção a Caminho das Nuvens, sequer lembro se cheguei a assistir em dvd, embora tenha visto algumas cenas do filme, talvez algum trailler (sou fã da Claudia Abreu e isso teria bastado para ir assisti-lo no cinema, mas, por alguma razão que não recordo, acabei não assistindo). Também nunca assisti JK, Sexo Frágil ou Paraíso Tropical na tv, devido a ter praticamente abandonado a prática de assistir Rede Globo (nada ideológico, povo, só falta de interesse pelas ofertas na grade de programação da emissora). Tá, admito, vermelha de vergonha, que não sabia nada até há pouco sobre a pegada do Olavo (de Paraíso Tropical, um vilão safadíssimo e delicioso desses que só existem nas novelas de Gilberto Braga). É no que dá ficar com a cara enfiada nessas séries estadunidenses. Estava perdendo todo esse borogodó baiano! Mas, eu me redimi, ouviram? Assisti tudo que encontrei dele no Youtube, inclusive as entrevistas, que, aliás, com meu grande coração, compartilhei com vocês aqui no blog.
Agora, para falar do Wagner nesses dois filmes já teria que escrever um terceiro post derivado deste, porque ele, o ator, merece um post à parte, só pra ele. E, como já disse lá em cima, os Nascimentos, capitão e coronel, também. Porque são figuras muito ricas pra caberem em poucos parágrafos e este post já ficou quilométrico. Já deve haver leitor pedindo pra sair. Porém, como disse o coronel, eu volto, eu volto... E escreverei todos esses posts que prometi. Ainda tenho muito o que dizer sobre o filme. Aliás, ia esquecendo de contar: por causa dele, fiz as pazes com o assunto (violência urbana/no Rio) e voltei a ler o que o povo - digo, antropólogos, sociólogos, ongs - anda escrevendo sobre ele. Uma última virada trazida por 2010 aos 44 do segundo tempo e que só verá (ou não?) seus desdobramentos em 2011. Como sou passional até o último fio de cabelo, enquanto estiver sob esse encantamento, lerei, escreverei e falarei sobre o assunto como uma metralhadora. Senta o dedo nesse teclado aê...
Wagner, caracterizado como coronel Nascimento, com o diretor do filme José Padilha
Vagner, fora do Bope: na pré-estréia do filme Tropa de Elite 2, em Paulínia.

3 comentários:

Liana disse...

oi tania. estou LOUCA para assistir tropa 2 e aqui nao tem!!! ohh!!
obrigada pelo seu comentario la no blog. fico feliz de poder inspirar atraves do blog e o que eu escrevo servir p outras pessoas.
um prospero 2011 pra vc!

tania disse...

Pois é, e chato é que o dvd parece que ainda levará uns dois meses pra sair. Existem versões pra baixar na internet - eu tenho uma aqui - mas a qualidade é muito baixa.
Feliz 2011 pra você também. Beijão

Maria Valéria disse...

Uma hora vou acabar perdendo o receio de ver esse filme. Sei lá. Primeiro, pelos mesmos motivos que fizeram vc evitar filmes sobre violência no rio e afins. Não topo muito esse assunto. E segundo, pq tenho pai delegado d e policia, e sou meio avessa a qqer coisa que mostre corrupção da policia( embora meu pai seja civil e, não PM como no filme...) mas, bem acho que dá pra entender. Mas uma hora vou acabr vencendo essa barreira, até pq tenho mania de ficar levantando bandeira pro cinema nacional, e esse ano, além de O Bem AMado( que adorei), nenhum nacional que vi prestou.( vi mais dois, dispensaveis... A suprema felicidade e De pernas pro ar)E todo mundo fala bem de tropa de elite 2, então, pq não assistir??
não sou carioca e talvez não entenda muitas das nuances do filme que vc citou, mas pelo que vc descreveu, vale a pena tentar. quando assistir, te conto! beijão;))